sexta-feira, 12 de outubro de 2012

'Foi mal, chefe!'


Não adiantaram as preces a Deus ou ao outro - não sei bem a quem essa turma devota sua fé. Não adiantou a pressão midiática para desacreditar a suprema corte, cuja maioria de integrantes foi indicada por eles mesmos, do modo mais republicano possível. Não adiantou a pompa das vestes e do latim dos defensores, que tentaram todos os sortilégios do mundo. O Supremo não se dobrou ao maniqueísmo petralha e fez o que tinha que ser feito. Afinal, reza a lei que crimes devem ser punidos; e crimes, muitos por sinal, houve.

Pena o chefe maior não ter sido arrolado. Ao menos, desta vez. Ele, que prometera tirar todo mundo da enrascada, não pôde contar com a ajudinha que esperava, do além. No máximo, duas inócuas manifestações de vassalagem mal disfarçada.

Dirceu, Genoíno e Delúbio são, aos olhos do STF, criminosos. E, como tal, devem ir para a cadeia. Falta apenas definir o tamanho da temporada. Aí, é natural que o marketing vermelho do sentimentalismo sobressaia, com lágrimas emocionadas aqui e ali e discursos eivados de ódio e preconceito contra os julgadores, em comoventes demonstrações de solidariedade, expressas por aqueles mais próximos da súcia. Mas os fatos estão consumados: os delitos foram comprovados e o julgamento deu conta de definir isso, restando agora alinhavar individualmente as penas.

Uma boa precaução é, neste momento, requisitar os passaportes desses cavalheiros, só para descargo de consciência. São todos pessoas de bem, em suas próprias palavras, mas não convém facilitar a tentação de uma viagem fora de hora, homiziadamente sem intenção de retorno. Seria pôr a perder todo o esforço de anos de trabalho e de exemplar demonstração de idoneidade dos nossos magistrados.

Seria indecente - como o foi a matula - com o Brasil.

   

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

E nós com isso?

  
O presidente do Petê se diz perseguido pela 'elite conservadora'. Ruy Falcão - não sei se com cê cedilha, na verdade - especula que é dela (subentendendo, provavelmente, a corrente formada por PSDB e DEM, ou ainda os militares) a culpa pela condenação dos mensaleiros, que já começou a se delinear, no julgamento da Ação Penal 470.

Ou seja: eles roubam dinheiro público, seja para fazer caixa dois (como é conveniente admitir agora), ou para cooptar parlamentares da base aliada do governo, e a responsabilidade não lhes cabe.

Aliás, como de hábito, a culpa não é deles...

Maior cara de pau já se viu?

   

domingo, 2 de setembro de 2012

A primeira baixa. O primeiro alento




A falta de tempo para prosseguir comentando o julgamento do mensalão não me impede de postar comentários, quando possível. E falar da condenação, já alinhavada, de João Paulo Cunha, é irresistível. Não pelo prazer de se chutar cachorro morto (que pode existir, também, em menor escala), mas pela boa nova que a decisão do Supremo Tribunal Federal enseja. Ensaia-se um belo resgate da imagem da corte maior do país, que andava meio enxovalhada em tempos recentes, por conta de polêmicas envolvendo - para lembrar algumas - o exercício profissional do Jornalismo e a extradição do terrorista italiano Cesare Battisti.

Houve um tempo em que o Petê terminava seus comerciais de tevê, num desses anos ímpares sem eleições, com o slogan 'o partido mais honesto do Brasil'. Deve ter sido aí pelos anos 1990 e creio que haja quem se lembre dessa pérola. Não gosto desse tipo de autodefinição eivada de uma certeza que não se pode externar. Hoje, é o PPS que se anuncia como 'um partido decente'. Até o dia em que deixe de sê-lo.

Enfim, o Partido dos Trabalhadores se elegeu, todo mundo sabe disso, com críticas severas aos que praticavam a corrupção e se dizendo incorruptível: não corromperia, nem se deixaria corromper. Mas fez os dois, em intensidade jamais vista, e se justificava com o discurso de que ou outros também faziam. Condenava a prática, como oposição, e a adotou como linha de conduta, quando se tornou governo. Mentir, então, passou a ser a forma padrão de se expressar. Afinal, dado o poder aos petistas, estes mostraram a cara que têm de verdade. Ou alguém tem a ousadia, a ingenuidade ou a burrice de supor que aquilo não é uma gangue travestida de partido político?

Dançou o primeiro homem da estrela vermelha. João Paulo Cunha não é mais candidato a prefeito de Osasco (SP) e, proferida a sentença do STF, deixará a Câmara dos Deputados pela porta dos fundos. Uma vergonha para o Brasil. Para o Petê talvez não, já que vergonha não parece ser um conceito conhecido pelo bando.

E que o Supremo prossiga na varrição de toda essa lama que lhe está tão ali ao lado, na Praça dos Três Poderes. Um bom rodo, a propósito, pode ser mais útil do que uma vassoura, para a tarefa.

   

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Dado não é roubado


3º dia


'Grazie!' (Luiz Fernando Pacheco, advogado de José Genoíno, em encontro com outros defensores de réus do mensalão, no restaurante Piantella, em Brasília, no final da segunda-feira, após ter pedido que o pianista da casa interpretasse o tema principal da trilha sonora do filme 'O Poderoso Chefão')







As acusações do Procurador-Geral da República são fantasiosas, sem fundamento, e as provas da defesa dos réus são a cristalina expressão da verdade. Todos são inocentes, já que nada se pode sustentar contra si. Com esse discurso, começou a fase da defesa dos primeiros acusados de participação no escândalo do mensalão.

Os advogados José Luiz de Oliveira Lima (defensor de José Dirceu), Luiz Fernando Pacheco (de José Genoíno) e Arnaldo Malheiros Filho (de Delúbio Soares), os três primeiros a falar, tentaram desacreditar as alegações de Roberto Gurgel, sempre apoiados em fatos e testemunhos de pessoas ligadas, de algum modo, ao próprio esquema. Como se exigissem do Ministério Público recibos assinados, notas fiscais ou confissões de culpa dos envolvidos, como únicas possíveis comprovações da participação no golpe da compra de votos.

Arnaldo Malheiros chegou à deselegância de sugerir que, a se considerar a aceitação de presentes como atitude irregular da parte de um agente público, os próprios ministros do STF poderiam ser acusados de corrupção, já que frequentemente recebem livros de presente de editoras forenses. Num país sério, uma acusação velada suscetível de voz de prisão.

A fila segue andando. E, apesar do notório cansaço já estampado nos rostos de alguns dos ministros do Supremo, o Brasil também segue. Acreditando que haja justiça.

   

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cinco horas, muita sujeira e pouco tempo


2º dia

'O mensalão é o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil.' (Roberto Gurgel, Procurador-Geral da República)









O Procurador-Geral da República pediu a condenação de 36 dos 38 réus do mensalão, durante as alegações finais feitas nesta sexta 2, segundo dia do julgamento da Ação Penal 470 pelo STF. Apenas Luís Gushiken (ex-secretário de Comunicação da presidência da República no governo Lula) e Antônio Lamas (ex-assessor da liderança do antigo PL - hoje PR - na Câmara dos Deputados) escaparam, por 'insuficiência de provas'.

Segundo Roberto Gurgel, José Dirceu foi o mentor da ação do grupo e seu principal protagonista e nada acontecia sem o seu consentimento. De acordo com o procurador, 'Dirceu está rigorosamente em todas'. O publicitário Marcos Valério foi tipificado como o cabeça do núcleo operacional.

Gurgel encerrou sua preleção dizendo que 'dormia a nossa Pátria Mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações', numa oportuna menção a um dos versos de 'Vai passar', canção de Chico Buarque de Hollanda.

O ex-ministro José Dirceu, no recesso de casa, preferiu usar o seu blogue para acusar aquela que chamou de 'mídia conservadora', juntamente com a direita, de uma 'tentativa de golpe' em 2005, quando o escândalo veio à tona.

E segue o julgamento, na próxima segunda-feira. Bom final de semana!

   

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Brasília, tremei! Começa a devassa no âmago do governo mais corrupto da história do país



1º dia

'Tenho mais o que fazer.' (Lula, à imprensa, quando questionado se acompanharia o desenrolar do julgamento do mensalão)









Logo na abertura dos trabalhos do primeiro dia do julgamento da Ação Penal 470 (nome técnico do processo do mensalão), seguindo uma tática legítima de defesa que, porém, põe a nu a absoluta ausência de bússola moral do ex-ocupante da pasta da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, advogado do ex-presidente do Banco Rural, José Roberto Salgado, tentou uma manobra para desmembrar o processo e conduzir a grossa maioria dos acusados para julgamento em instâncias inferiores. A proposta decerto arrastaria o julgamento dos envolvidos à beira de eventuais prescrições, conforme a lentidão dos ritos, individualmente. E já tinha sido debatida pelos ministros do STF antes, chegando-se à conclusão de se dever manter o processo em conjunto, dada a interligação das acusações. Percebida a tentativa, por 9 votos a 2 a questão de ordem foi rechaçada, porém deixando, como prejuízo, um dia inteiro de trabalho perdido numa improdutiva masturbação mental - sem direito a clímax - sobre o tema.

Mas ficou o registro: por trás dos argumentos da inconstitucionalidade (de se julgarem, no STF, réus sem direito a foro privilegiado) e da possível negação, a eles, de defesa futura, uma vez que julgados de primeira em instância máxima, passou indisfarçável a (primeira) tentativa de tumultuar o julgamento.

A propósito, a frase de Lula, no começo, exprime o medo indizível, disfarçado de desdém debochado. Mesmo não sendo ele, o inquestionável cabeça do esquema, diretamente alcançado pelo julgamento.

O Petê está com medo. E o Brasil segue confiante que a justiça se faça.

   

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

As vicissitudes de agosto

  
Agosto, mês do meu gosto. Começa amanhã o julgamento que já é chamado 'do século': o da Ação Penal 470, conhecida popularmente como mensalão, resumidamente a prática daninha do Partido dos Trabalhadores, capitaneada pelo então presidente Lula, de compra de votos de partidos políticos para a aprovação de projetos de interesse do Petê. Trinta e oito réus serão julgados pelo maior escândalo de corrupção já denunciado no Brasil, numa maratona que deverá entrar pelo próximo mês.

Apesar de episódios recentes não muito louváveis envolvendo a corte máxima do país, é preciso acreditar que o Supremo Tribunal Federal haverá de fazer justiça aos brasileiros de bem, contribuindo - esperamos, com uma condenação em massa - para estancar o câncer da corrupção que vem corroendo a dignidade que, dia a dia, tentamos manter de pé.

Boa Sorte a todos nós!